PRINCIPAL EVENTOS
APRESENTAÇÃO
ARTIGOS
PESQUISAS
LITERATURA REGIONAL PROJETO ABCERRADO LIVROS
REVISTAS
MÍDIA

CONTATO
COLABORADORES





NA ROTA DAS NASCENTES


Por Robson Eleutério


Localizadas num ponto de passagem de fácil acesso às principais regiões do Brasil, as nascentes do Planalto Central se tornaram um importante referencial geográfico, desde o início do século XVII, quando por aqui vagavam inúmeros sertanistas no comando das expedições exploradoras, conhecidas com entradas e bandeiras. Estes sertanistas, a princípio, tinham como finalidade o apresamento dos índios, mas com a descoberta de pedras preciosas nas Minas Gerais (1668) passaram a se interessar pela busca de riquezas minerais. Mais tarde, descobriram ouro no Centro-Oeste, primeiro em Cuiabá (1718),  e depois nas margens do rio Vermelho (1725), afluente do rio Araguaia, situado nas proximidades da atual Cidade de Goiás , antiga capital do estado.

Na Rota das Nascentes:
a história da região do DF

Capa do Livro

 

Desde os primeiros momentos da nossa colonização que a Lagoa Feia (Formosa/GO), Bonita (Planaltina/DF) e Formosa (Planaltina/GO), constantemente aparece em fontes documentais primárias, fundamentais para o estudo da nossa história. Mapas produzidos pela cartografia portuguesa da época, crônicas dos viajantes europeus, relatos de viagens de autoridades no período colonial, ata das câmaras de vereadores, são alguns destes documentos.

O historiador cerratense Paulo Bertran justifica as migrações à região das nascentes, remontando à época dos primeiros habitantes do Planalto Central. Para ele “a região do Distrito Federal preenche alguns requisitos para ser considerada como área interessante sob o ponto de vista de povoamento pré-histórico. O triplo divisor de bacias hidrográficas deveria ser, no passado remoto – bem como seria no Século XVIII –, um caminho inevitável para as migrações (...)” [1]

 


Ainda nos primórdios do século dezessete, em 1614, o bandeirante André Fernandes destacou uma lagoa no centro do mapa do Brasil, que possivelmente seja a Lagoa Formosa, localizada em Planaltina de Goiás. “A bandeira de André Fernandes é importantíssima para a história do Planalto, não por suas ações, mas pelas informações geográficas que deixou. A partir dessas informações, a cartografia portuguesa passou a mostrar com detalhes as nascentes dos Rios Maranhão, Paranã e São Bartolomeu”. [2]
No decorrer do século dezoito, Urbano do Couto Menezes, um lendário personagem da história da região do Distrito Federal, enviou um carta a rainha de Portugal, D. Maria I, a Louca, informando sobre uma mina de ouro que acabara de descobrir, possivelmente nas proximidades das Águas Emendadas. Ele também cita as lagoas do Planalto como referência no seu roteiro.

Falava Paulo Bertran que Urbano deveria ser reconhecido como um dos personagens mais importantes para a história do Distrito Federal, em reconhecimento ao extraordinário serviço que realizou no Quadrilátero Cruls e arredores. Reconheceu de forma detalhada, a área onde foi construída a futura capital, cinqüenta anos antes da Missão Cruls; dando nome a rios, morros, lagoas e dezenas de pontos geográficos. Assim o personagem contribuiu de forma significativa para a toponímia do DF. Em 1722, Urbano trilhou essa região como um dos membros da bandeira do Anhanguera, no auge da mineração em Minas e Goiás. Em 1736, foi contratado pelo governo colonial para abrir a Picada de Goiás, estrada que ligava as duas capitanias. Na década de 1740, foi o protagonista da lendária história da mina de ouro perdida no coração do Planalto Central, que ainda hoje , alimenta o imaginário de antigos moradores. Alguns já escavaram as fazendas próximas a antiga propriedade de Urbano, consultando mapas, na esperança de achar o tesouro.

Um dos primeiros pesquisadores a interpretar o roteiro do Urbano foi Henrique Silva, profundo conhecedor da região, resultado do seu trabalho na Missão Cruls. Segundo ele as lagoas citadas no roteiro são: a Lagoa Bonita, que fica dentro da Estação Ecológica de Águas Emendadas; a segunda é a Lagoa Bonsucesso, localizada às margens do Rio Maranhão numa área totalmente degradada; e a terceira, ao que tudo indica, é a Lagoa Formosa (ambas no município de Planaltina Goiás). Já a Lagoa Feia, em Formosa, não aparece no roteiro e, o poço fundo se localiza nas imediações  da cidade de Planaltina/GO. Veja matéria publicada pela revista “A Informação Goyana”, em 1926. [3]

Em “Viagem pelo Brasil”, o botânico Martius e o zoólogo Spix narraram uma passagem pela região no ano de 1818: “O divisor de águas entre o Rio Paranã e a cabeceira principal do Rio Tocantins, chamado Rio Maranhão, cuja nascente na Lagoa Formosa, igualmente numa chapada, a sudoeste daquela do Rio Paranã, é citada perto da Fazenda do Mestre de Armas, seria formado por montanha de altura igual à Serra do Paranã, e também composta de grés.” [4]

Além desses personagens, os viajantes europeus também contribuíram para a nossa história produzindo pesquisas relevantes; como o francês Saint-Hilaire, o tcheco Emanuel Pohl [5], entre tantos outros que aqui estiveram em razão de um acordo entre a realeza desses países e a coroa portuguesa.

No final do império de D. Pedro II, outro importante personagem da nossa história, Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, realizou a primeira pesquisa científica que indicou a região das lagoas do Planalto Central como o local ideal para a construção da nova capital. Em 1877, Varnhagen [6] escolheu a cidade de Formosa para realizar seus estudos, cujas análises enfatizam as nascentes que vertem para as principais bacias do Brasil. Sua pesquisa foi utilizada pela equipe de Cruls e deu origem ao relatório que demarcou o Distrito Federal.

No Relatório da Missão concluído em 1893, Cruls foi enfático ao reconhecer a região das nascentes como o local ideal para a construção da capital: “Convêm notar que os autores que têm se ocupado com este projeto são unânimes em considerar a zona onde tem os mananciais dos rios Araguaia, Tocantins, São Francisco, Paraná, isto é, sobre o Planalto Central, cerca de 15º de latitude austral, como sendo a mais vantajosa, sob todos os pontos de vista”. [7] Henrique Morize, também membro da Missão, expressou sua opinião, publicada  no jornal A Noite, em 11 de setembro de 1922, por ocasião da edificação da Pedra Fundamental. Essa elevação é uma espécie de um espinhaço que se pode comparar a cumieira de uma casa, separando as águas da vertente norte, da vertente sul; mas em alguns pontos é absolutamente insensível dando isto causa ao phenomeno que os naturais chamam “a água emendada” (...) [8]

Influenciados pela onda modernista que tomavam conta das principais cidades do país nas primeiras décadas do século vinte, em 1922, o engenheiro Ernesto Balduíno foi nomeado pelo presidente Epitácio Pessoa para erguer a Pedra Fundamental em comemoração ao centenário da independência. O local escolhido foi uma colina sobre o Morro do Catingueiro, em Planaltina, na bacia do alto São Bartolomeu. Em quatro de setembro, Balduíno foi a campo, visitando algumas localidades da região, a fim de escolher o melhor local para edificar o obelisco. Visitou o Parque Nacional, um local que serviu de acampamento para a Missão Cruls, seguindo logo depois para outro ponto nas margens do rio Paranoá e, por último esteve em Mestre d’Armas, onde decidiu erguer o obelisco sobre uma colina localizada a 7 km da cidade, ente os vales dos rios São Bartolomeu e Sobradinho. Após a edificação do obelisco, essa colina recebeu a denominação de “Morro do Centenário” e outra elevação ao lado de “Morro da Independência”, ambas situadas numa área bastante sensível da bacia do alto São Bartolomeu, extremamente pressionada pelo adensamento urbano.

Com o final da Era Vargas, o novo presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, criou a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital. Presidida pelo general Djalma Polli Coelho, colocava em prática um dispositivo do artigo 4º da Constituição Federal de 1946: “a capital da União será transferida para o Planalto Central do país”.

Após dois anos de pesquisa, os estudos dessa Comissão ratificaram as informações de Varnhagen e do Relatório Cruls, e confirmaram a região que abriga as nascentes que vertem para as principais bacias do país como o local como ideal para a construção da nova capital. A decisão final sobre a área do novo DF só veio durante o governo Café Filho, em 1956, quando foi concluído o relatório Belcher. O documento sugeria o Sítio Castanho, na Fazenda Bananal, como o local ideal para a construção da capital, cujas terras situadas no município de Planaltina. De imediato foi delimitado um quadrilátero de 5.850 km2, destinado ao Distrito Federal, localizado entre dois rios que vertem para as bacias do São Francisco e Platina: o Rio Preto (paralelo 15º30'S) na divisa leste e o Rio Descoberto (16º03'S) no oeste.Suas terras se localizava na Fazenda Bananal, pertencente ao município de Planaltina. Veja a narrativa de Laerte Alarcão:

Em 04/02/1955 pousa em Planaltina um avião com o marechal José Pessoa, o marechal Clovis Travassos e o Dr. Ernesto Silva para verificar “in loco” os cinco sítios indicados no relatório Belcher e decidir a localização da nova capital. Circularam num Chevrolet cedido por Iron Chaves e dirigido por Laerte. A certa altura pararam num pequeno outreiro, perto de onde posteriormente se fincou o cruzeiro da primeira missa. Laerte descreveu o evento: binóculos aos olhos, perscrutam o horizonte quase eqüidistante. Expectativa, o marechal arria o binóculo, impertubável, fita seus pares e sentencia: “Está decidido, será este o sítio.” Era o Sítio Castanho. O relógio marcava 13:15h. [9]

As cidades de Planaltina (DF) e Formosa (GO) abrigam nascentes tributárias de três importantes bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica (Maranhão/Tocantins), São Francisco (Rio Preto) e Paraná (Rio São Bartolomeu). Para preservar a área, em 1968 foi criada a Reserva Ecológica de Águas Emendadas, em Planaltina (DF), englobando reserva nativa às margens da BR-020, local onde fica a nascente da dispersão das águas; e outra área que circunda a Lagoa Bonita, perfazendo um total de 10.547 hectares com limite ao norte no município de Planaltina (GO). Em Formosa, segundo o Sr. Gerson Monteiro Guimarães, profundo conhecedor da região, existe um ponto em terra que distribui as águas da chuva para as três bacias do continente. 

Águas Emendadas é a mais importante reserva natural do Distrito Federal, pois ali ocorre o fenômeno único da união das bacias Amazônica e Platina em uma vereda de 6 km de extensão. Essa característica faz dessa região um dos acidentes geográficos de maior expressão em território nacional. Em um único lençol freático, nascem dois córregos que seguem sentidos opostos: para o norte corre o córrego Vereda Grande, formador do Rio Maranhão; e para o sul segue o córrego Brejinho, formador do Rio São Bartolomeu. Em Formosa nasce o Rio Preto, um importante tributário do Rio São Francisco.

 



Bacia do São Francisco: Localizada na região do DF, é constituída pela Bacia do Rio Preto, cujas nascentes principais se encontram na cidade de Formosa. Seus afluentes mais expressivos são: Ribeirão Santa Rita, Ribeirão Jacaré, Ribeirão Extrema, Rio Jardim e Ribeirão São Bernardo.


Bacia do Tocantins/Araguaia: É formada pelas bacias hidrográficas do rio Maranhão e Paraná. Sua principal nascente do Maranhão encontra-se em Planaltina, dentro da Reserva de Águas Emendadas, recebendo os seguintes afluentes: Ribeirão Palmeiras, Ribeirão Sonhim, Ribeirão da Contagem, Ribeirão das Pedreiras, Ribeirão Cafuringa, Rio das Palmas, Ribeirão Dois Irmãos e Rio do Sal. O rio Paranã tem como seu principal formador o rio Itiquira, que nasce em Formosa.

Bacia do Paraná: É constituída pelas bacias hidrográficas do Lago Paraná, Rio São Bartolomeu, Rio Descoberto, Rio São Marcos e rio Corumbá. Dentro da reserva de Águas Emendadas se encontra o Ribeirão Mestre d’Armas, formador do Bartolomeu.

 

BIBLIOGRAFIA: [1] Paulo Bertran. História da Terra e do Homem no Planalto Central - Eco-história do Distrito Federal -
do indígena ao colonizador, p. 9.
[2] Ibidem 1, p. 50.
[3]Henrique Silva. A Informação Goyana, p. 55.
[4] Spix e Martius. Viagem pelo Brasil, p. 108.
[5] Jonhann Emanuel Pohl era um dos renomados cientistas da Missão Austríaca que veio ao Brasil por ocasião
do casamento de D.Pedro I com a Aruqiduquesa Leopoldina. Segundo o pesquisador Jaime Sautchuk, a
nacionalidade de Pohl era Theca, ocorre que naquela época a atual República Tcheca estava ocupada
pelo império áustro-húngaro e os documentos saíam como "nascido na Áustria".

[6] Diplomata, historiador, membro da Academia Brasileira de Letras, foi agraciado pelo governo imperial
com o títulos de barão e visconde de Porto Seguro em 1874.

[7] Luiz Cruls. Planalto Central do Brasil, p. 59.
[8] Jornal A Noite, p. 04.
[9] Laerte Alarcão, Foi bom e tenho saudade, p. 69

V o l t a r

 

Copyright © Portal Cerratense - 2017 - Todos os direitos reservados.
ISSN -  2447-8601